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Adeus, Eldorado: o fim de uma era no rádio brasileiro

Adeus, Eldorado: o fim de uma era no rádio brasileiro

No dia 15 de maio de 2026, uma das vozes mais sofisticadas do dial brasileiro se cala para sempre. A Rádio Eldorado FM encerra 68 anos de história — e leva consigo uma forma única de fazer rádio.

Era 4 de janeiro de 1958. Enquanto São Paulo despertava para mais um verão, uma nova voz entrava no ar pela primeira vez: a Rádio Eldorado AM 700. O primeiro programa transmitido foi "Música de Concerto". Naquele momento, ninguém imaginava que aquela emissora se tornaria, décadas depois, sinônimo de curadoria musical, jornalismo de qualidade e cultura — uma referência afetiva para gerações inteiras de paulistanos.

Quase 70 anos depois, a história chegou ao fim. No dia 23 de abril de 2026, o Grupo Estado comunicou oficialmente o encerramento das transmissões da Eldorado FM 107.3, marcado para 15 de maio de 2026.

Uma linha do tempo de memórias

A trajetória da Eldorado é também a trajetória do rádio cultural brasileiro. Alguns marcos que ficam:

1958 — A Rádio Eldorado AM 700 vai ao ar pela primeira vez, em 4 de janeiro, às 7h30, com o programa "Música de Concerto". A programação inicial era feita de noticiários e músicas eruditas, com uma proposta diferente de tudo que existia no dial paulistano.

Anos 1970 e 1980 — A emissora se consolida como referência. Locutores com vozes serenas e elegantes definem o estilo da casa. Nomes como Boris Casoy e William Bonner passam pela Eldorado antes de se tornarem grandes nomes da comunicação nacional. Pelo Selo Eldorado, a emissora lança discos com intérpretes da música erudita brasileira — uma iniciativa única no rádio do país.

1975 — A Eldorado FM entra no ar na frequência 92,9 MHz e amplia o alcance da marca para a frequência modulada, levando sua curadoria musical refinada para uma nova geração de ouvintes.

1985 — A rádio realiza uma parceria histórica com a TV Cultura para transmitir o debate entre candidatos à prefeitura de São Paulo. A mediação fica a cargo do jornalista Adhemar Altieri, em uma cobertura que marcou época.

Anos 1990 e 2000 — Programas como Um Piano ao Cair da Tarde, São Paulo de Todos os Tempos, Hora da Vitrola e Jô Soares Jam Session tornam-se parte da memória afetiva da cidade. A Eldorado passa a ser referência não apenas pelo que toca, mas por como fala — com respeito, profundidade e elegância.

2011 — O Grupo Estado cria a Rádio Estadão ESPN em parceria com a ESPN Brasil, assumindo as frequências AM e FM 92.9. A programação musical da Eldorado migra para a frequência 107.3 FM, em parceria com a Fundação Brasil 2000 — endereço que ocuparia até o fim.

22 de abril de 2026 — O Grupo Estado convoca uma reunião interna e comunica a decisão: a emissora encerrará as atividades. Cerca de 60 profissionais — locutores, técnicos, produtores e jornalistas — são informados do fim. A notícia vaza e provoca comoção imediata nas redes sociais.

1º de maio de 2026 — Sete petições no Change.org já somam quase 15 mil assinaturas pedindo a reversão do fechamento. Ouvintes, artistas e profissionais da comunicação se mobilizam.

3 de maio de 2026 — Um protesto reúne ouvintes, ex-colaboradores e jornalistas na Avenida Paulista, um dos cartões-postais de São Paulo. Faixas, cartazes e muita emoção.

15 de maio de 2026 — Data prevista para o encerramento definitivo das transmissões em FM. A frequência 107.3 passará a ser operada pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação.

O que fica

Apesar do silêncio no dial, a marca Eldorado não desaparece completamente. O Grupo Estado anunciou que programas como Som a Pino e Clube do Livro serão reformulados para plataformas digitais, com ênfase em vídeo. A identidade da emissora seguirá viva em projetos especiais e eventos.

Mas para quem cresceu ouvindo aquela voz no carro, em casa, no escritório — nada disso é igual. O rádio tem uma presença física, uma intimidade com o ouvinte, que nenhuma plataforma digital substituiu ainda.

O dial vai mudar. A frequência 107.3 vai ter outro nome, outra voz, outra proposta. Mas quem ouviu a Eldorado sabe que aquele jeito de fazer rádio — sereno, culto, humano — deixou marca. E marca assim não some.

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