Dia dos Povos Indígenas: educação contra estereótipos e preconceitos

Estereótipos nas escolas reforçam racismo contra povos indígenas, ocultando séculos de violência e imposição cultural. Educação deve desmontar esses mitos para reconhecer a verdadeira complexidade dessas sociedades.
Não se diz mais ‘Dia do Índio’. Desde o ano passado, a lei define esta quarta-feira, 19 de abril, como ‘Dia dos Povos Indígenas’, para celebrar a cultura e heranças desses povos. A medida, aprovada no Congresso Nacional, deixa de lado o termo, considerado preconceituoso contra os povos originários.
Para o coordenador executivo da APIB, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Dinamam Tuxá, o preconceito acaba sendo reforçado com estereótipos que ainda persistem em comemorações e nos livros escolares.
“Várias escolas fantasiando, crianças, querem colocar os indígenas em um formato, dentro de uma caixinha. Indígena é aquele que mora dentro da floresta, que anda, tem vestimentas. Isso cria um cenário de um racismo porque essas crianças crescem na ideologia de um indígena do cabelo liso, dos olhos puxados, uma pele avermelhada. Nós passamos por um processo de miscigenação. Nós passamos por um processo de violência. Quantas mulheres indígenas não sofreram abusos sexuais? Tiveram a miscigenação forçada”.
A existência dos povos indígenas é atravessada por séculos de violência. Para Dinamam Tuxá, essa violência persiste em forma de racismo, como resquício da colonização portuguesa.
“Processo de muita violência, de aculturação forçada, de retirada de língua, de abuso, de trazer os povos indígenas de forma forçada a uma realidade que não lhes pertence, de não demarcar os territórios indígenas, de não promover ações de políticas públicas que fomentem a cultura dos povos indígenas. Então todo esse cenário contribui ainda para que essa violência se propague dentro e fora das terras indígenas”.
O professor de História da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Fabrício Lyrio, reforça que a chegada dos portugueses trouxe uma série de violências contra os povos originários, o que resultou em genocídio. Enquanto 5 milhões de indígenas viviam no Brasil, em 1500, atualmente essa população não chega a 1 milhão.
“É, sobretudo, uma violência simbólica de demarcar uma presença né? Numa terra que já havia outras pessoas vivendo. E essa violência ela tende a crescer. Tanto a violência intencional da guerra, da escravização, quanto a violência que não foi planejada mas que teve um impacto absurdo sobre as populações nativas, a chegada de novas agentes infecciosos. Há uma dimensão de genocídio, não há dúvida”.
Fabrício Lyrio lembra que, antes de imigrantes e pessoas do continente africano, os indígenas foram os primeiros escravizados pelos portugueses no Brasil. Segundo o especialista, os primeiros engenhos de açúcar no país foram montados com mão de obra indígena, em maior parte escravizada.
Em 1500, os portugueses que aqui chegaram, acreditavam ter chegado às Índias. Por isso, deram nome de índios aos que aqui já viviam. Mas, o termo correto é indígena, que significa, no latim, “natural do lugar em que vive”.
Essa matéria faz parte de uma série especial de duas reportagens sobre o Dia dos Povos Indígenas. As matérias serão publicadas nos dias 19 e 20 de abril. Esta é a primeira reportagem da série.
Fonte Rádio Agência – agenciabrasil.ebc.com.br
Por Sayonara Moreno – Repórter da Rádio Nacional – Brasília
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