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Do pós-abolição às ondas do rádio: como a cultura negra construiu a identidade sonora do Brasil

4 min de leitura
Do pós-abolição às ondas do rádio: como a cultura negra construiu a identidade sonora do Brasil

No Dia da Abolição, a ER+ resgata a presença negra no rádio brasileiro — de Grande Otelo na Rádio Nacional a Osmar Santos nas Diretas Já — e reflete sobre o apagamento histórico de vozes negras na memória da radiodifusão.

Hoje, 13 de maio, é o Dia da Abolição da Escravatura no Brasil — data em que, em 1888, a Lei Áurea extinguiu formalmente a escravidão no país. É também uma data de reflexão: a assinatura da Lei Áurea foi um marco que aboliu formalmente a escravatura, mas que não determinou uma fronteira clara entre a escravidão e a liberdade dos negros. Para o movimento negro, o 13 de maio não é celebração — é memória crítica e convite à análise do que ficou por fazer.

No universo do rádio e da comunicação, essa história tem um capítulo fundamental que merece ser contado.

A música negra como única porta aberta

Nos anos seguintes à abolição, o meio musical ainda apresentava uma das poucas possibilidades de mobilidade para os negros no período pós-abolição. As canções escravas impulsionaram todo um mercado, dando visibilidade aos descendentes de africanos. Muito antes do rádio existir como meio de comunicação, artistas negros já construíam seu espaço às duras penas.

Um exemplo fascinante é o de Eduardo das Neves (1874–1919), cantor e artista circense que lançou em 1907 o lundu "Canoa virada" em homenagem à abolição, em que clamava: "o preto já é livre, já não tem senhor." Ele influenciou diretamente artistas que viriam a se tornar nomes centrais da Era do Rádio — João da Baiana, Sinhô, Pixinguinha.

O rádio surge e a cultura negra está lá

Quando o rádio brasileiro começa a se estruturar nos anos 1920 e se populariza nos anos 1930 e 1940, são justamente os ritmos de origem afro-brasileira que fazem o veículo explodir em audiência. A "era do rádio" foi fundamental na popularização de intérpretes do samba. Muitos deles saíram dos morros e das periferias das grandes cidades para conquistar multidões por meio das ondas radiofônicas, principalmente entre as décadas de 40 e 60.

E não era só música. Entre 1938 e 1946, Grande Otelo — ator, compositor e uma das maiores personalidades negras da cultura brasileira — fazia trabalhos na Rádio Nacional e na Rádio Tupi. Era uma presença negra no microfone, mesmo que a história oficial raramente o lembre por isso. Até a contratação de Grande Otelo para apresentações, os negros não podiam sequer entrar pela porta da frente do Cassino da Urca — e ainda assim ele estava no ar, sendo ouvido por todo o Brasil.

Resistência também soa em estúdio

Nos anos 1970, em plena ditadura militar, o rádio voltaria a ser palco de afirmação da identidade negra. O pianista e compositor Dom Salvador fundou a banda de black power Abolição — e foi ao fundar esse grupo que ele encontrou a expressão sonora autêntica. Em um período de ditadura militar, a Abolição emergiu como um ato de afirmação da identidade negra.

Na mesma época, surgiu no rádio esportivo Osmar Santos, locutor conhecido como "O Pai da Matéria", um dos mais populares narradores do rádio brasileiro, capaz de pronunciar mais de 100 palavras por minuto, com passagens pela Jovem Pan, Record e Rádio Globo. Uma voz negra que virou fenômeno nacional — e que também ficou marcado na história ao se tornar o locutor dos comícios das Diretas Já, em 1984, quando foi convidado a se candidatar como deputado federal, mas recusou: tudo o que queria era se comunicar diante de um microfone.

O apagamento que também é história

Há, porém, uma lacuna que precisa ser dita: a historiografia do rádio brasileiro registrou muito mal a contribuição de locutores e comunicadores negros. Os livros, os museus, os especiais de aniversário — quase todos reconstroem a Era de Ouro com pouquíssimas vozes negras nominadas. Não porque elas não existissem, mas porque o racismo estrutural operou também no arquivo, na memória e no reconhecimento.

Os veículos de comunicação contribuem para a manutenção da discriminação ao não dar espaço para artistas negros, negando sua contribuição para a formação da cultura nacional. Isso vale para o presente — e também para como contamos o passado.

Num 13 de maio, vale lembrar: a voz que saía dos alto-falantes e entrava nas casas brasileiras por décadas carregava, muitas vezes, uma história de superação que a história oficial nunca contou direito. E nós, da comunicação, temos a responsabilidade de contar agora.

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