O comercial mais lendário do futebol foi filmado por um diretor de Hong Kong

Em 1998, a Nike contratou John Woo pra dirigir a seleção brasileira num aeroporto vazio. Sem locução, com Mas Que Nada de trilha, o comercial viralizou antes de existir YouTube — e virou um dos maiores ícones da publicidade esportiva.
Em maio de 1998, faltando duas semanas pra Copa do Mundo da França, a Nike soltou um comercial de quase dois minutos que ainda hoje aparece em quase toda lista séria sobre melhores comerciais esportivos da história. O nome simples: Airport. O cenário: uma sala de embarque vazia de aeroporto.
A premissa também era simples. A seleção brasileira chega atrasada pra um voo. Enquanto esperam, começam a jogar bola dentro do terminal. A música é Mas Que Nada, do Sérgio Mendes. Não tem locução. Não tem texto. Não tem logo da Nike até o último frame.
O que poucas pessoas sabem é que o comercial foi dirigido por John Woo — sim, o diretor hongkonês que tinha acabado de filmar Cara a Cara com Nicolas Cage e John Travolta. E que os jogadores brasileiros eram fãs declarados dele.
A seleção brasileira nas mãos do diretor de Cara a Cara
John Woo era, em 1997, um dos diretores de ação mais influentes do planeta. Tinha vindo do cinema de Hong Kong (The Killer, Hard Boiled), pulado pra Hollywood, e estava prestes a filmar Missão Impossível 2. Foi a Wieden+Kennedy, agência da Nike, que sugeriu o nome dele.
A aposta era arriscada. Comercial de Nike sempre tinha sido território de diretores de publicidade tradicional. Trazer um diretor de filme de ação chinês pra dirigir a seleção brasileira parecia, no papel, uma combinação estranha demais.
Mas Ronaldo Fenômeno, principal jogador da seleção, era fã declarado de Woo. Quando soube quem dirigiria, topou na hora — e arrastou o resto do elenco. Roberto Carlos, Romário, Rivaldo, Denílson, Cafu. Eric Cantona, francês recém-aposentado, fechou o elenco fazendo um pequeno papel: o piloto do avião, no final.
Filmaram no Galeão e em um aeroporto fechado em Milão
A produção começou em dezembro de 1997, numa sala VIP do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio. Os jogadores não puderam ficar muito tempo no Brasil — quase todos jogavam na Europa e tinham temporada em andamento. Solução: terminar as tomadas em Milão, no aeroporto de Malpensa, que ainda não tinha sido inaugurado pra voos comerciais.
A cena mais famosa do comercial é Ronaldo cobrando a bola na trave do esqueleto de uma estrutura metálica — bola sobe, bate na trave imaginária, volta. Não foi truque de edição. Ronaldo acertou de primeira em quase todas as takes. Quem trabalhou na produção contou em entrevistas que ele fazia parecer fácil, e fazia mesmo.
Em matéria detalhada da FourFourTwo, produtores e diretor de fotografia contaram que a química do elenco era tão evidente em set que muitas cenas saíram de improviso. Os jogadores brincavam de verdade — a câmera só registrava.
Mas Que Nada: a trilha sonora que virou marca
Sérgio Mendes & Brasil '66 tinham gravado Mas Que Nada (de Jorge Ben Jor) em 1966. A música tinha sido sucesso nos Estados Unidos naquela década, mas em 1998 já era considerada vintage. A Nike escolheu propositalmente.
O efeito foi imediato. A música não tinha locução, não tinha refrão em inglês, mas comunicava brasilidade de um jeito que palavra nenhuma teria conseguido. As jogadas dos atletas viraram coreografia da batida do samba. O comercial inteiro funciona como videoclipe — narrativa sustentada por som e movimento, sem precisar de texto.
Quase trinta anos depois, Mas Que Nada virou trilha de inúmeras outras peças publicitárias, séries e filmes. Mas pra uma geração de torcedores, ela é a música do Airport. A associação ficou colada.
1998 era um país sem YouTube — e o vídeo viralizou mesmo assim
Em 1998, a internet brasileira ainda era discada. YouTube não existia (só seria criado em 2005). Plataformas de streaming também não. Espalhar um vídeo de dois minutos pelo mundo dependia de mídia tradicional — TV, MTV, cinema antes da sessão, VHS pirata.
Mesmo assim, o Airport rodou globalmente. A Nike comprou espaço em transmissões esportivas em mais de quarenta países. A MTV passou em rotação. Salas de cinema rodavam antes de filmes de grande público. E começou a aparecer em VHS — gravado de TV, repassado mão em mão.
Foi um dos primeiros exemplos de comercial que virou conteúdo — peça publicitária que as pessoas queriam assistir de novo, pedir pra ver, gravar em fita. O termo viral marketing ainda não existia no vocabulário publicitário. O Airport tinha as características de viral antes do conceito ser nomeado.
Em 2018 a Nike refez o comercial — e quase ninguém lembra
Para a Copa da Rússia, em 2018, a Nike refez Airport. Mesma premissa, mesmo aeroporto-cenário, nova geração: Neymar, Coutinho, Marcelo, Casemiro, Thiago Silva. Mas Que Nada remixado.
Funcionou tecnicamente — produção impecável, jogadores topando o jogo. Mas não chegou perto do impacto original. O motivo é didático: o primeiro Airport tinha sido novidade absoluta. Comercial de futebol não era cinema. Em 2018, todo comercial de Copa já era cinema — a vara estava muito mais alta.
A lição: nem sempre o remake supera. Às vezes a campanha vira ícone porque foi feita num momento em que ninguém esperava aquele padrão. Refazer com mais recursos não recupera o efeito de surpresa.
Por que isso importa pra quem trabalha com locução e produção
Airport é um comercial sem locução — e por isso mesmo é uma aula sobre locução. Mostra que toda peça publicitária é decisão de o que falar e o que deixar em silêncio. Quando a trilha é forte o suficiente, a narração some. Quando a imagem conduz, a voz fica de fora.
Todo comercial subsequente da Nike na Copa usou locução — porque tinha outro tom, outra proposta, outra estética. Cantona em 2006 falava direto pra câmera. Iñárritu em 2010 fez narração interna dos personagens. Em 2014 voltou trilha cinematográfica com narração. Cada decisão de incluir ou excluir voz é decisão narrativa antes de ser decisão técnica.
Locução publicitária é, antes de tudo, leitura de roteiro. Quem trabalha com voz numa campanha precisa entender por que aquela voz está ali — e quando o silêncio comunicaria mais. A Escola de Rádio forma locutores publicitários online e também presencialmente, no curso Voz na Publicidade. Voz que entende quando entrar e quando ficar fora vale mais que voz só técnica.
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